O que levou as organizações Globo a mudarem de atitude em relação aos rumos do Golpe de 2015 ?

A grande empresa de mídia quer descartar o arauto de sua agenda política. O que leva a Globo a agir dessa forma? Quais seriam os planos por trás desse comportamento que a distancia dos demais membros da grande imprensa, até há pouco muito alinhados em suas posturas e ações políticas?

Feres Junior, Carta Capital, 20.05.17

https://www.cartacapital.com.br/politica/a-crise-politica-e-o-enigma-da-globo

A pergunta que mais tem intrigado observadores da conjuntura de economia política no Brasil após o Golpe de 2015 se refere a suposta reversão na posição política das organizações Globo na questão J&S x Temer em maio de 2017.

O objetivo do presente artigo é manter aceso o debate, dado que pouco mais nos resta diante das escaramuças de um alto comando que, por definição, manterá nas sombras negociações para um novo pacto político.

  1. Impacto sobre balanços bancários foi muito pequeno.

Tem-se na operação de escuta do empresário da megacorporação de capital nacional exemplo contundente do que ocorre nos jogos de alto comando no capitalismo histórico. Nestes, informações são guardadas como segredos, apenas revelados quando o pêndulo do tempo transforma em passado o presente. Até lá, os movimentos estratégicos, as negociações, estabelecidas entre lideres empresariais, bancos, indústria e midia corporativa, interesses nacionais e estrangeiros, latifundiários e sindicatos, são realizadas dentro de um circulo muito fechado de pessoas. A boa política neste momento usualmente prevalece. A intermediação de pactos políticos a partir de situações de crise profunda é trabalho de iniciados. Usualmente, as posições mais sêniores correspondem a ex-presidentes da República.

A partir dos acontecimentos J&S x Temer, a banca teve que administrar breve período de pânico. Até aqui, apenas a indústria perdeu. A banca propeliu-se no “otimismo” alcançado no mercado de capitais quanto às perspectivas de rápida aprovação das “reformas” liberalizantes e quanto ao rigor do ajuste fiscal.

Com a interrupção no curso das votações no legislativo, o “mercado” parecia se ajustar em níveis inferiores de preços. Isso não aconteceu. Aparentemente o mercado de capitais, juros câmbio e bursátil, renovou as expectativas de aprovação das “reformas”. Talvez tenha compensado tempo maior esperado para votações pós-Temer com correspondente diminuição de riscos.

Na Figura 1 mostra-se a quase plena recuperação nos retornos acumulados em bolsa de valores após divulgação das denúncias pelas organizações Globo.

Figura 1 – Recuperação do mercado bursátil brasileiro após o incidente J&S x Temer (retornos acumulados em %)

bovespa

Fonte: elaboração própria a partir de dados da BM&F

Ou seja, os indicadores de mercado mostram que, apesar de surpreendidos, os interesses financeiros foram capazes de reagrupar capital político para manter o controle sobre a montagem do pacto político que será celebrado até as eleições de 2018. As matérias de interesse –  ajuste fiscal, reforma da previdência e trabalhista, desnacionalização do petróleo e desmonte do BNDES parecem asseguradas.

2. Avanço nas reformas não trará termo ao fraseado da crise – é o emprego, idiota!

No entanto, para que o país volte a crescer, será necessário mais que desejo quixotesco do complexo financeiro-midiático-jurídico no Brasil. Sem a retomada do emprego não haverá recuperação econômica. Por definição, o que ocorre no “crescimento”, que apenas a “equipe econômica” viu, chama-se apropriação de riqueza pelos mais ricos. O aumento na apropriação de lucros beneficia conjunto muito limitado de brasileiros. Não resolve a crise. Será necessário implementação de políticas de gastos públicos em investimentos, em larga escala, para que haja retomada do emprego e da renda dos brasileiros.

Da mesma maneira, as unidades federativas encontram-se em situação de crise financeira em decorrência dos elevados juros, queda na arrecadação e ajuste fiscal. O tal “capital privado” se interessou por segmentos muito específicos da economia nacional. Aqueles que gerarão caixa em qualquer circunstância – energia, água e esgoto, transporte. Segmentos onde ainda há espaço, na esfera estadual, para apropriação privada. Ainda assim, apenas nos Estados mais prósperos no Sul-Sudeste. Ou seja, será necessário pacto político que inclua os governadores, principalmente no eixo norte-nordeste. Sem um projeto de investimentos públicos em escala nacional dificilmente cessará a crise, mesmo com avanço nas “reformas”.

3. Influência de D. Trump sobre a política brasileira

Em segundo telefonema após a posse nos EUA, o presidente D. Trump conversou com o Vice brasileiro no dia 18 de março último. A conversa foi agendada com antecedência pela Casa Branca, que esperava ouvir de Temer sinais concretos de recuperação da renda, do emprego e do crescimento no Brasil (Ver http://brasildebate.com.br/relacoes-entre-o-governo-temer-e-os-eua-do-impeachment-a-crise-da-carne/).

Segundo a BBC, a partir de fontes na Casa Branca, o distanciamento entre os governos Trump e Temer possui várias hipóteses não mutuamente exclusivas:

Os entrevistados sugerem algumas possíveis causas que explicariam o distanciamento atual nas relações entre os dois países – ou mesmo a falta de interesse em uma aproximação maior: as acusações de corrupção de políticos ligados ao governo Temer; a lenta recuperação da economia brasileira; a curta duração do mandato de Michel Temer; seus baixos índices de popularidade; o foco do governo Trump sobre problemas internos, como cortes de impostos e programa de saúde, e sobre questões geopolíticas que envolvem os EUA, como o bombardeio à Síria e a ameaça de um ataque nuclear pela Coreia do Norte; e, finalmente, a própria imprevisibilidade que marca a gestão Donald Trump.

Admitindo-se que o processo de delação da J&S precipitou o fim do Governo Temer, entre as hipóteses listadas a única que possui efeito material direto para as firmas industriais norte-americanas no Brasil é a de demora na retomada do emprego e da renda.

Ou seja, a estaca de madeira cravada no peito do Vice por Joesley pode perfeitamente ter sido articulada com interesses norte-americanos fora do circuito financeiro. Lembra-se que o controlador e sua família atualmente moram nos EUA e lá se encontra boa parte das operações da J&S na atualidade.

Lembra-se igualmente que a operação, que teve o aval de segmentos da polícia federal e do STF, passou ao largo do poderoso Departamento de Combate a Crimes Financeiros localizado em SP. Tratou-se de operação sigilosa, que colocou à margem a República de Curitiba e o jornalismo das organizações globo alinhados com a banca.

4. Midia corporativa e o fim do Governo Temer

Conforme se pode perceber na Figura 2, as manchetes negativas associadas ao Vice sofreram incremento significativo no Jornal Nacional após divulgação do audio da J&S em maio de 2017, o que mostra a mudança de comportamento das organizações Globo.

Figura 2 – Manchetômetro para M. Temer no Jornal Nacional

manchetometro 1

Fonte: http://www.manchetometro.com.br/

A mudança de comportamento das organizações Globo surpreendeu ainda mais quando examinada em comparação com outro veículo, a Folha de São Paulo. Como se sabe, a FSP reagiu à divulgação do audio com dúvidas acerca de legitimidade das provas apresentadas (perícia), apesar de ter iniciado a fritura do Governo Temer bem antes das organizações Globo, conforme se pode perceber na Figura 3.

O termos de comparação ficam mais evidentes quando incluído comportamento, bastante consistente entre os dois veículos, quanto ao ex-presidente Lula. Desde o final de 2016 a FSP já superava, em manchetes negativas, o tratamento dispensado a M. Temer quando comparado a Lula. Já o JN, este fenômeno se observou apenas a partir do escândalo da J&S.

Figura 3 – Manchetômetro para M. Temer na FSP

Imagem2

Fonte: http://www.manchetometro.com.br/

A participação de interesses norte-americanos nas organizações Globo são conhecidos desde o Golpe de 1964, quando o sistema Globo de TV foi criado (A Historia Secreta da Rede Globo, D. Hertz).

No início dos anos 2000 as organizações Globo enfrentaram dificuldades com excesso de endividamento em dólares. Em outubro de 2002 a família Marinho pediu moratória no pagamento das dívidas bancárias e debêntures. Contrataram então o Banco Goldman Sachs, especializado em fusões e aquisições, para ajudar a Globo a superar a crise.

A primeira solução, naturalmente, foi recorrer ao BNDES com vistas a financiamento.

Durante os debates no Congresso brasileiro, representantes das redes Globo e Bandeirantes defenderam o financiamento para a reestruturação das empresas de comunicação, enquanto os das redes Record, Rede TV e SBT se alinharam para que o crédito com recursos do BNDES fosse aberto apenas para investimentos. Diante das diferentes visões, a linha de crédito para o setor jamais foi aprovada. [http://memoriaglobo.globo.com/acusacoes-falsas/bndes-e-renegociacao-da-divida.htm]

A outra solução, bem sucedida, foi vender participação relevante da NET para a mexicana Telmex. O caixa adquirido com a operação permitiu a normalização dos pagamentos pelas organizações Globo. A Telmex é a controladora da Embratel e da Claro. Por sua vez, a Telmex é controlada pela America Mobil, empresa com controle pulverizado entre bancos e fundos de investimento financeiro.

Ja a Folha de São Paulo tem se caracterizado como empresa familiar, que cresceu através de sucesso na concorrência em maior mercado editorial do país. Não possui alavancagem financeira comparável com a Globo em face de menor imobilização de capital. Por isso o crescimento pode se dar com manutenção do controle sobre os negócios.

Em síntese, é razoável se esperar que a FSP possui maior proximidade com os interesses industriais brasileiros (Fiesp) e menor influência de interesses financeiros internacionais, quando comparada com a Globo.

Nestes termos, a súbita mudança de atitude da Globo na crise política brasileira parece decorrer da insistência, por parte da Globo, de manter o presidente Temer, a despeito da demora na aprovação dos temas de interesse da banca – reformas da previdência e trabalhista.

Considerando-se que a influência da indústria na FSP tem colocado desde inicio de 2017 urgência na saída de Temer, a motivação certamente parece outra. Neste caso, a retomada do emprego e da renda, sem os quais a indústria fracassará no país. Mesmo a estrangeira (automotiva, fármacos, produtos de limpeza etc).

Conclusivamente, apesar de difícil de se provar na conjuntura, defende-se a hipótese de que a denúncia da J&S pode guardar relações com a saída precipitada de Temer e o imperativo de retomada do emprego, sinais da influência do Governo D. Trump sobre a vida econômica e política brasileira.

Em outras palavras, parte-se da hipótese de que a luta por espaços no pacto político pós-Temer colocou o BNDES e a Petrobrás como esferas onde, se defende com unhas, dentes (e operações da PF), será necessário comando da banca, de maneira promover o saneamento ético destas instituições.

Como a hipótese pode ser comprovada ? Simples. Os políticos associados à banca internacional, que até agora apoiavam Temer, desejam manter a “equipe econômica”. Só que na cabeça dessa gente o BNDES e a Petrobrás são parte dessa “equipe”.  Se a Petrobrás e o BNDES vierem a sofrer mudanças de comando importantes no pós-Temer, será evidência de que algo mais determina os rumos da política nacional. Estas forças “invisíveis” não terão outro locus para surgir senão o governo do bom e velho dominador estrangeiro. Um dominador alinhado com interesses industriais para além da banca internacional.

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