A hegemonia renovada: estratégia norte-americana no ciclo político do primeiro mandato de D. Trump (2017-2020)

  1. Introdução

A eleição de D. Trump para a presidência dos EUA não pode ser considerada exatamente como surpresa. Seja porque D. Trump é parte integrante da minoria próspera norte-americana[1], seja por representar um dos dois partidos que se revezam na liderança da montagem do pacto político do Estado mais rico e poderoso do planeta há cerca de 150 anos.

Trump se apresentou aos eleitores norte-americanos como “walking example of American dream”. Vindo de baixo, com competência, esperteza e dedicação soube levar adiante os negócios familiares e erguer fortuna como incorporador imobiliário. As empresas Trump não possuem praticamente endividamento e sua campanha eleitoral foi em mais de 90% auto-custeada. Isto significou independência dos interesses financeiros e dos demais políticos fortalecidos pela proximidade com Wall Street.

A independência política do empreiteiro de Nova Iorque não parece implicar necessariamente na ausência de afinidade com interesses econômicos estabelecidos. Desde o lançamento da candidatura, em junho de 2015, nos discursos públicos colocou ênfase na revitalização da indústria, investimentos em infraestrutura e fortalecimento militar. Claramente o objetivo público comunicado durante a campanha foi o combate ao desemprego que, em transcrição literal, “ultrapassa os 15%, talvez chegando a 20%. Esta estatística de 5-6% não corresponde a realidade”.

A composição do legislativo federal em 2016 favoreceu os Republicanos, que obtiveram 55,4% dos votos. A composição sugere maioria, é verdade, mas também impõe ao Presidente, como era alias esperado, formação de pacto político com interesses potencialmente contraditórios. Neste tabuleiro há interesses sobre o mercado interno e sobre territórios de influência no estrangeiro, incluindo-se Brasil.

Conforme se pode perceber na análise dos discursos públicos realizados por D. Trump entre junho de 2015 até o presente momento, a agenda neoliberal que ditou políticas nos Governos Clinton, nos anos 90, e Obama após 2008, foram frontalmente criticadas. Da mesma maneira, D. Trump identificou as instituições financeiras como interesses investidos hegemônicos globais nos últimos oito anos. Identificou ainda a mídia corporativa como principal instrumento de poder político de uma minoria próspera rentista.

A intimidade de D. Trump com a mídia audiovisual remonta os anos oitenta, quando estrelou reality show[2] em rede nacional. Neste, era um magnata que deu a volta por cima após ter se endividado junto aos bancos [abertura do episódio 1, temporada 1][3]. Tomando-se a desenvoltura e o timing mostrados na campanha de 2016, ainda que preservada a concepção do personagem original, trata-se de evolução considerável. Mr. Trump aprendeu como se faz televisão através de um show concebido para parecer realidade. Ou seja, aprendeu que a maior das mentiras é a manipulação das massas. Desde Hitler, incluindo-se Getúlio Vargas e Martin Luther King, muitos entre os grandes estadistas carismáticos procuraram se dirigir diretamente às massas com objetivo de tocar corações e mentes.

Em outubro de 2016, em discurso na Florida, D. Trump afirmou:

A nossa luta é para substituir um establishment político fracassado e corrupto por um novo governo controlado por vocês, o povo norte-americano. O establishment sediado em Washington e as grandes empresas midiáticas financiadas pelos grandes banqueiros existem por uma única razão – para proteger e enriquecer a eles mesmos.

A elite global tem trilhões de dólares a perder nesta eleição. Para aqueles que puxam as alavancas do poder em Washington e para os interesses globalizantes, eles se aliam a pessoas que não pensam no bem estar de vocês. A nossa campanha representa uma ameaça existencial como eles jamais viram.

Esta não é uma campanha presidencial para mandato de quatro anos. Isto é uma encruzilhada na história da nossa civilização. Determinará se nós o povo retomaremos o controle sobre nosso próprio governo. O establishment político que está tentando nos parar é o mesmo grupo responsável por Acordos comerciais desastrosos, imigração ilegal em massa, e políticas econômicas externas que sangraram nosso país até a morte.

Existe uma estrutura de poder global que é responsável pelas decisões econômicas que roubaram a nossa classe trabalhadora, usurpou de nosso país a riqueza e colocou esse dinheiro nos bolsos de um grupinho de grandes corporações e entidades políticas.

A máquina dos Clinton está no centro desta estrutura de poder. Vimos isso em primeira mão através de documentos veiculados pela Wikileaks. Nos quais H. Clinton se encontra secretamente com bancos internacionais para conspirar contra a soberania norte-americana.

A mais poderosa arma empregada pelos Clinton é a mídia corporativa: a imprensa. Vamos ser claros em uma coisa, a mídia corporativa em nosso país não está mais envolvida em jornalismo. Eles são um grupo de interesse político sem nenhuma diferença em relação a qualquer outro lobby ou entidade financeira. Com uma agenda política e a agenda não é para vocês [tradução do autor]

Dada ruptura anunciada como histórica, a resultante para o período político que se inaugura pode ser considerada imprevisível, tantas são as possibilidades, ações e reações dos incontáveis interesses distribuídos nas porções emersas do planeta a esta possível ruptura. Para conduzir a presente análise, cumpre-se recorrer a comparações históricas, buscar no passado o que se propaga no presente, tanto quanto no presente aquilo que vem do passado.

Considerando-se conjunto de discursos públicos de D. Trump desde junho de 2015, o objetivo do presente artigo é discutir brevemente o que seria a liderança norte-americana no século XXI e quais recursos os norte-americanos estão dispostos a mobilizar para manter esta liderança.

2. Estratégia econômica dos EUA

O saldo da balança comercial norte-americana até meados da década de setenta foi aproximadamente nulo (Tabela 1). Desde então e até o início dos anos 2000, o regime de cambio valorizado e a liberalização comercial levaram a globalização de segmentos das cadeias produtivas de partes-peças e componentes industriais, principalmente na Ásia e na Europa.

Contudo, o aumento explosivo da liquidez em dólares após 2001 não foi suficiente para reverter o movimento de acumulação e crescimento do principal adversário comercial norte-americano – a China. Em 2016 o déficit comercial norte-americano com a China somou cerca de US$ 30 bilhões ao mês.

Ou seja, olhando-se a macroeconomia e o longo prazo, não se encontram razões para revisões tempestivas na estratégia comercial norte-americana. A não ser pela ameaça geopolítica que representa a velocidade do processo de acumulação chinês.

Figura 1 – Saldo da balança comercial norte-americana desde o pós-guerra

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Por outro lado, a estratégia protecionista norte-americana antecipada pelo candidato D. Trump não pode ser justificada estritamente pelo objetivo de criação de empregos nos EUA. Durante o período B. Obama o desemprego vem se reduzindo nos EUA, sendo esta redução mais intensa entre os jovens (atualmente em cerca de 10%).

Desta maneira, a crítica de D. Trump ao liberalismo comercial não se justifica pelo saldo da balança comercial norte-americana. A interpretação mais razoável é que a ameaça seja a velocidade e a magnitude da acumulação chinesa a partir do valor adicionado industrial que pode ser apropriado no mercado norte-americano.

Dado que nos EUA o peso do Estado na economia é relativamente menor que no Brasil, quais as alavancas podem ser movidas para que o tecido industrial e tecnológico floresçam no território norte-americano ?

A resposta o próprio presidente eleito traz como parte da gestalt da sua narrativa. Ou seja, a partir do encaminhamento da questão levantada é que o novo presidente revelará os interesses que o apoiam. São quatro as respostas e deve-se examinar cada uma sob o ponto de vista de identificação de causas (interesses) e consequências (países). É a partir do cálculo, que combina princípios do xadrez e do pôquer, que se moverá a história ocidental no século XXI.

2.1. Setor automotivo

Após 2008, já na Administração B. Obama, o acirramento da concorrência internacional levou os EUA a concederem incentivos à indústria nacional. Seja mediante recursos volumosos para planos de reestruturação das maiores integradoras automotivas, seja através de restrições de conteúdo nacional para compras governamentais.

O segmento automotivo é responsável por boa parte da produção manufatureira norte-americana. Conforme na Figura 2, o que se percebe é decadência no longo prazo. Desde os anos oitenta a automação e a globalização têm sido responsáveis por fechamento de fábricas nos EUA. Enquanto há crescimento elevado nas vendas de automóveis nos EUA (cerca de 19 milhões de unidades em 2016), a produção não superou os 4 milhões no mesmo ano. Lembra-se que a capacidade de produção de automóveis no Brasil é de cerca de 5 milhões de unidades ao ano em 2016.

Figura 2 – Produção de automóveis nos EUA

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Ou seja, com medidas protecionistas no setor automotivo são esperados investimentos significativos para ocupação/ampliação da capacidade instalada nos EUA (hoje gira em torno de 75% e cai desde os anos 70). A produção pode se ampliar em até quatro vezes, criando-se muitos empregos e renda. Muitos destes empregos serão criados em oficinas e redes comerciais distribuídas pelo país.

Figura 3 – Consumo doméstico de automóveis nos EUA

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Os maiores prejudicados com medidas protecionistas no segmento automotivo serão Japão e México. Para o Japão, a sangria será mais lenta, considerando-se papel de integrador com engenharia competitiva no mercado. Os requisitos de qualidade e segurança exigidos nos mercados japonês e norte-americano são equivalentes. Já no caso do México, as consequências serão bem mais significativas. Cerca de 3% do PIB do México se deveu ao setor automotivo em 2015. Cerca de 17% da produção e 18% do emprego manufatureiro encontram-se neste setor. O México exporta 90% da produção automotriz.

As relações comerciais com a China, em princípio, não seriam fortemente abaladas por medidas neste segmento. Acredita-se que D. Trump foi bastante cuidadoso em não abrir frentes para guerra comercial com a China. Caso mencionasse eletroeletrônica como segmento-chave, a situação seria bastante diferente, face a participação das exportações chinesas na cadeia produtiva das lideres norte-americanas.

Em resumo, o protecionismo no segmento automotivo deve gerar impulso de crescimento nos EUA sem, contudo, criar contenciosos comerciais com outros países, exceto Japão e México.

2.2. Construção civil pesada

A revitalização da construção civil pesada permitirá aos EUA criação de empregos a partir da base da sociedade, diminuindo-se a desigualdade social e ampliando-se os mercados para duráveis e não-duráveis.

A promessa de campanha de D. Trump foi a de atender as demandas de Governadores e prefeitos, distribuídos por todo o território e não apenas aqueles localizados nos principais centros financeiros. Investimentos em infraestrutura doméstica contribuem muito para a economia e possuem impacto comparável em termos de apoio político entre os lideres regionais. Os Governadores e prefeitos vinham sendo isolados pela administração B. Obama em nome de princípios fiscalistas.

Buscaremos Perseguir uma política de “America’s Infrastructure First” que dará apoio a investimentos em logística, energia, saneamento, redes de eletricidade, redes de telecomunicações, infraestrutura de segurança e outras necessidades domésticas. [Programa de Governo D. Trump]

Trump prometeu ainda elevar o conteúdo nacional dos insumos para construção civil pesada. Com isso, não apenas conjunto reduzido de empreiteiros (main contractors), mas diferentes atores industriais parte das cadeias produtivas se beneficiarão do impulso de investimento. De fabricantes de tratores e guindastes até usinas siderúrgicas.

Tomam-se assim as grandes obras de engenharia no setor de construção civil pesada como estratégia para impulso de industrialização nos EUA e conquista de apoio em escala nacional.

Mais de 60.000 pontes são consideradas “estruturalmente deficientes”. Congestionamentos custam a economia dos EUA mais de US$ bilhões anualmente. Muitas estradas principais foram classificadas com “abaixo da condição de uso”.

A Associação Nacional de Manufatureiros estima um hiato de 10 anos de investimento., totalizando-se 1 trilhão de dólares. O Plano de Infraestrutura de Trump irá diminuir este hiato. [Programa de Governo D. Trump]

Abordou-se pouco a questão da energia na campanha eleitoral. No programa de Governo, contudo mencionam-se:

  • Tornar o setor de energia estratégia econômica dominante e objetivo de políticas internacionais pelos EUA.

  • Torna-se e permanecer totalmente independente de qualquer necessidade de importação de energia do cartel da OPEC ou qualquer nação hostil aos nossos interesses.

  • Reduzir e eliminar todas as barreiras para produção responsável de energia, criando-se ao menos meio milhão de empregos. [Programa de Governo D. Trump]

A questão ambiental dominou o debate eleitoral. Com certa razão. D. Trump fala de impulso a geração a carvão em padrões competitivos.

Dado que investimentos em infraestrutura serão adicionais e provavelmente beneficiarão não apenas os EUA, mas em menor medida outros exportadores de tecnologia, antecipa-se baixo impacto sobre outras economias nacionais.

2.3. Defesa

Trump identifica o Estado Islâmico como adversário dos EUA. Politicamente seria difícil admitir novo atentado sem elevado prejuízo para sua imagem.

Pelos discursos de campanha, deve-se apoiar ação militar de Israel no Irã. Para que a solução seja permanente, os EUA devem oferecer plano que beneficie econômica e politicamente os interesses na região.

Não se espera prioridade dos EUA contra a Coréia do Norte. A estratégia a ser adotada militariza o Japão com recursos do Estado japonês. A mesma situação deve ser colocada para a União Europeia frente aos gastos com a OTAN.

Para alcançar seus objetivos, D. Trump prometeu revitalização das forças armadas. A encomenda pública representa injeção de recursos orçamentários nos vários estágios de produção do complexo industrial militar nos EUA.

Aumentaremos o tamanho do exército norte-americano para 540 mil soldados na ativa. Reconstruiremos a Marinha com objetivo de possuirmos 350 navios. Proveremos a Aeronáutica com 1.200 caças. Aumentaremos o corpo de fuzileiros para 36 batalhões. Investiremos em mais e melhores sistemas de defesa contra misseis através da modernização de nossos cruzadores e destróires contra as ameaças de Irá e Coréia do Norte. Enfatizaremos ferramentas para guerra cibernética, colocando-se no estado da arte em defesa e ataque. [Programa de Governo]

3. Palavras finais

Tomado em conjunto, a estratégia norte-americana parece apontar para novo período de impulso industrializante, centrado na expansão do crédito público (fiscalmente neutro) e na abertura de frentes de trabalho em infraestrutura. Requisitos de conteúdo nacional devem permitir elevados efeitos multiplicadores de renda e emprego nos EUA nos próximos anos.

 

[1] No discurso de lançamento da candidatura em Nova Iorque em junho de 2015, D. Trump declarou patrimônio de cerca de 9 bilhões de dólares norte-americanos, constituídos majoritariamente por imóveis ao redor do mundo. Conforme exigido pela Comissão de Eleições Federais, H. Clinton declarou estar na faixa entre 15 e 55 milhões de dólares [USA Today].

[2] Mr. Trump realizou reality show na rede NBC, a qual é controlada por General Electric, protagonista da industrialização norte-americana e parte do complexo industrial-militar [Herman&Chomsky (1988)].

[3] No The Apprentice, D. Trump se propunha a ensinar competitivamente a oito candidatos e oito candidatas a “arte do ofício”. Como se trata de laboratório comportamental, na primeira temporada do reality show testou-se a questão de gênero, dividindo-se os candidatos em dois grupos. Um de jovens candidatas e outro de rapazes, todos supostamente talentosos. Vale conferir no youtube.

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