Breakout no Irã

  1. Cronologia da crise nuclear no Irã

Em 1967 os EUA forneceram para o Irã o primeiro reator nuclear do país – Tehran Research Reactor (TRR), o qual continua operacional após modernização tecnologica com ajuda de firmas argentinas na década de 90. Três anos depois de “comprada” a primeira usina, o Irã assinou Acordo Internacional de Não Proliferação de Armas Nucleares na ONU.

Em 1974 o então Xá R. Pahlevi, aliado do ocidente, anunciou programa de expansão de geração elétrica termonuclear com meta de 23 GW de capacidade em 20 anos. O programa incluiu a construção de 23 usinas geradoras e unidades de enriquecimento de combustível, em modelo parecido com aquele adotado no Brasil à época.

Com a criação da República Islâmica em 1979 no Irã, a colaboração tecnológica ocidental foi interrompida e o Irã foi incluído pelos EUA em lista de Estados que apoiam o terrorismo internacional, com primeiras sanções econômicas aplicadas.

Durante as décadas de 80 e 90 o ocidente ampliou conjunto de sanções, principalmente em boa parte voltadas para asfixia da indústria de energia iraniana. O Governo persa construiu durante o mesmo período novas alianças tecnológicas, principalmente com a Rússia (energia termonuclear) e a China (mísseis balísticos para lançamento de satélites).

Em 2002 grupo político iraniano supostamente ligado a atividades terroristas anunciou que o país dispunha de usina de enriquecimento de urânio nas imediações de Arak. Cerca de um ano depois, o conselho diretor da International Atomic Energy Agency (IAEA) promulgou Resolução que impunha ao Irã paralisação do processo de enriquecimento de urânio e abertura das instalações de beneficiamento do mineral no país a técnicos da AIEA.

Depois de indas e vindas, a AIEA aceitou o compromisso de interrupção de enriquecimento radioativo pelos persas. Alguns meses mais tarde, já em 2005, o Irã anunciou Acordo com a Russia para fornecimento de combustível enriquecido para o reator nuclear de Bushehr, sendo os rejeitos enriquecidos retornados para a Russia como medida “preventiva” para que o Irã não tivesse condições de obter plutônio.

Após meses de negociações com o ocidente, o Conselho de Segurança da ONU expediu as Resoluções 1.737 e 1.747 que, em conjunto, visaram restringir a capacidade do Irã em desenvolver tecnologias com aplicação em balística e em beneficiamento de urânio.

Em 2007, cinco anos após frustradas tentativas ocidentais, a inteligência norte-americana informou que o Irã encontrava-se em condições de dispor de primeiro artefato nuclear entre 2010 e 2015. Um mês após a posse de B. Obama em 2008, o Irã anunciou bem sucedido lançamento de primeiro satélite, o que confirmou suspeitas de desenvolvimento de misseis balísticos pelos persas.

Ao final de 2008 os EUA, Inglaterra e França anunciaram que o Irã possuía segunda instalação secreta de enriquecimento de urânio nas montanhas perto da cidade sagrada de Qorn.

Ao inicio de 2010 o ocidente, juntamente com a AIEA, aceitaram novo Acordo com o Irã para enriquecimento e utilização de urânio enriquecido a 20% para utilização em geração elétrica. Ao final do ano, contudo, técnicos iranianos revelam que a existência do virus de computador stuxnet causou danos na planta de enriquecimento de Natanz. Os principais alvos do vírus foram sistemas de controle de automação e monitoramento industrial, conhecidos pela sigla SCADA / Siemens. Segundo o wikileaks, houve sério acidente na usina à mesma época.

No início de 2012 a UE proibiu seus países-membros de importarem óleo do Irã. Durante o mesmo ano, a AIEA reportou que o Irã vinha enriquecendo minério em quantidades superiores aos requisitos exigidos para geração elétrica.

Em discurso nas Nações Unidas, Israel estabeleceu “linha-vermelha” para massa de 250 kg de urânio enriquecido a 20% de pureza. Esta massa seria suficiente para a fabricação de primeiro artefato com urânio quase puro (50 kgs).

Em 2013 o presidente dos EUA assumiu as negociações entre os países (França, Inglaterra, EUA, Rússia, Irã) com esforço de celebração de Acordo definitivo. Em 2015 o Irã testou dois misseis balísticos de grande precisão, em violação de Resolução da ONU.

Em um dos mais aplaudidos discursos do Congresso Norte-americano na história recente, o chefe de Estado de Israel, B. Netaniahu, confrontou em fins de 2015 as relações internacionais conduzidas pessoalmente pelo presidente democrata B. Obama.

O foco das críticas foi a atitude condescendente dos EUA com o programa nuclear iraniano. B. Netaniahu não chegou a propor explicitamente alternativa militar como ação dos EUA, mas terminou seu discurso afirmando que “nós judeus sabemos nos defender sozinhos” e, mais adiante, “os EUA estarão junto conosco”.

Os pleitos do Estado de Israel diante do Congresso Norte-americano concentraram-se em impor ao Irã:

  1. interromper as ações agressivas sobre os vizinhos do Oriente Médio;
  2. interromper o apoio ao terrorismo ao redor do mundo;
  3. interromper a ameaça de aniquilamento do Estado de Israel.

Israel reconheceu que a redução nos preços do petróleo contribuiu para o enfraquecimento do regime de Aiatolás no Irã. No entanto, a capacidade de promover ações agressivas contra o ocidente não seria interrompida com o encaminhamento proposto pelo Presidente Obama. Claramente, sem o apoio militar dos EUA, não é possível ao Estado de Israel atacar o Irã. A razão é que isso envolveria potencialmente outras potências asiáticas em escalada de guerra. A crença é que os EUA, mesmo sem OTAN, podem dissuadir qualquer ação hostil ao Estado de Israel.

B. Netaniahu alegava à época que o Acordo que vinha sendo negociado pelos EUA levaria a guerra no futuro. O Irã manteria a capacidade de produção intacta e poderia dispor de bomba atômica já a partir de 2017. A partir da década seguinte, contaria com arsenal nuclear. O número estimado de centrífugas pelos serviços secretos de Israel e dos EUA contabilizavam cerca 19 mil.

A resposta de B. Obama, que não compareceu a seção plenária conjunta no Congresso, foi que se encontrava ocupado com a questão russa na Ucrânia. Obama replica que Israel não possuiria alternativa negocial viável e que a não realização do Acordo seria pior que a consolidação do Acordo em curso.

Em setembro de 2016, o premier de Israel ocupou o púlpito das Nações Unidas para reafirmar o protagonismo do Estado dos judeus no mundo e dizer que a guerra contra Israel desencadeada na ONU deveria terminar.  De acordo com o Primeiro Ministro, a ONU emitiu cerca de 30 Resoluções “contra” o Estado de Israel, referente a situação palestina.

No entanto, Netaniahu afirmou que a ONU deveria  observar que Israel é um “global water power”, na medida em que dispõe de tecnologias e plantas para dessalinização de 90% da água utilizada. Da mesma maneira, argumentou que Israel atrai cerca de 20% dos investimentos privados mundiais em cyber-segurança.

Mais recentemente, o Premier de Israel condenou duramente a omissão do Governo Obama na ONU. Em seção do dia 23 de dezembro de 2016, a ONU aprovou Resolução que demandou a retirada de Israel de território palestino. Os EUA não exerceram poder de veto no Conselho de Segurança.

we are entering a new era and as president-elect said yesterday, it is going to happen much quicker than people think. [B. Netaniahu]

O recém-eleito Presidente D. Trump compartilha da visão de Israel e enfatiza a importância de ação direta e imediata contra a capacidade do Irã em produzir artefatos nucleares.

2. Poderio militar no Oriente Médio

Ainda que não seja confirmada por qualquer das partes, a base aérea de Hamadam, no Irã, encontra-se franqueada a bombardeiros e caças russos. Há fotos que mostram número significativo de bombardeiros estratégicos ‘Backfire’ Tu-22M3s, que podem ser armados com mísseis nucleares e jatos Su-34 no exato momento em que estas linhas são escritas.

Em meados de dezembro de 2016 o embaixador iraniano em Moscou anunciou a implantação de sistema de misseis S-3.000 soviéticos na base antiaérea de Khatam al-Anbiya. Sistemas de mísseis anti-aéreos visam proteger bases aéreas. Algo distinto de sistemas de mísseis anti-misseis, atualmente instalados na Europa (contra Rússia), no Japão (contra Coréia do Norte) e no Oriente Médio (contra Irã) por fabricantes norte-americanos.

O submarino nuclear de ataque K-329 Severodvinsk entrou em serviço em 2014. O Severodvinsk possui estrutura mais leve ( 13.800 ton) do que os submarinos de outras classes soviéticas. Possui tamanho de um prédio de quase 40 andares e atinge até 40 nós de velocidade debaixo d’água, sendo significativamente mais silencioso que seus antecessores. A marinha soviética possui 4 destes encomendados.

Conforme na Tabela 1, o número de submarinos nucleares ocidentais é superior (22) que a soma dos artefatos na Rússia e na China combinados (17). O emprego de submarinos de ataque é usualmente concebido como em primeira onda, direcionado a instalações militares adversárias. Cada submarino consegue transportar misseis de médio alcance e há baixíssima chance de serem detectados antes do lançamento. Por isso, são diretamente associados ao exercício de poder global e apenas 5 nações dispõe de um. O Brasil seria (?) o sexto país na lista, porém restrito ao papel de caçar outros submarinos.

 

Tabela 1 -Poder militar no tabuleiro internacional

ira

Fonte: Globalfirepower.com

Os EUA são o único país a dispor de uma frota de porta-aviões compatível com presença militar em todos os principais oceanos e mares do planeta. Concebidos como arma de destruição de massa, o ataque de bombardeiros é direcionado principalmente para instalações militares e de infraestrutura logística e energética. Os EUA são os únicos que podem oferecer ameaça desta natureza e, ao mesmo tempo, a América é o território mais seguro para este tipo de ameaça. Tanto o poder naval como aéreo norte-americano no mar são incontestáveis. Ao mesmo tempo, o número de tanques russos e chineses superam em muito os norte-americanos, o que mostra, junto com elevados contingentes militares, superioridade da China e Rússia em terra.

Quando observado comparativamente, parece indiscutível que os EUA possuem capacidade militar instalada compatível com o exercício do poder hegemônico mundial. No entanto, combinações de forças mediante alianças na Ásia podem efetivamente ameaçar a hegemonia norte-americana naquele continente e impedir a formação de novo império ocidental.

Na Tabela 2 pode-se perceber que a Europa (OTAN) é relevante para o objetivo de dissuadir o Irã de perseguir armas nucleares intercontinentais. Caso os EUA-Israel avaliem que o ataque às instalações nucleares do Irã desencadeará alianças com Turquia e Egito, torna-se importante a abertura de outras frentes de conflito, eventualmente envolvendo-se a Ucrânia, de maneira a dividir o esforço militar russo.

Em síntese, qualquer cenário de ataque militar ocidental ao Irã pode desencadear escalada de guerra com envolvimento rápido de outras nações e, consequentemente, recolocando o preço e o suprimento do petróleo como variáveis-chave das economias que não o dispõem.

Tabela 2 – Cenários para invasão ao Irã

 Tanques (mil)
 Caças
 Bombardeiros
 Aptos ao serviço militar (mil)
 Subs
 Sub Nuc.
 Porta aviões

Ásia (irã, China, Russia, Turquia e Egito)

            35

       2.661

      3.594

        775.886

        182

                17

        2

Ocidente (EUA, Israel, A. Saud., França, UK, Alemanha e Italia)

            16

       3.451

      4.079

        236.955

        112

                22

      26

EUA e Israel

            13

       2.551

      3.028

        123.025

          81

                14

      19

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