Artimanhas do Poder Organizacional no BNDES

Marco Aurélio Cabral Pinto / Diretor Comunicação AFBNDES*

* Tratarei de BNDES com mandato representativo ao qual sirvo no biênio 2016-2018 iniciado em julho. O presente artigo foi circulado impresso em edição do Vinculo de quinta-feira, 13.10.

 

 

Faz cerca de 4 meses e meio desde que a administradora profissional Maria Silvia Bastos Marques assumiu a Presidência de um dos três maiores bancos de desenvolvimento do mundo. Com cerca de 1.200 funcionários de nível superior, distribuídos em equipes multidisciplinares, se produzem análises que comprometem recursos públicos de longo prazo. As perdas do BNDES são mínimas e as apostas as mais arriscadas. Em mais de sessenta anos de história, o Banco se orgulha de ter contribuído para a invenção do Brasil industrializado. O que nós benedenses temos a dizer para bem receber a equipe que chega ? Qual a magia do BNDES ?

Como detentores de saber iniciático, os benedenses buscam compreender há seis décadas as cadeias produtivas (agro) industriais em que o Estado brasileiro foi instado a apoiar. O apoio à infraestrutura foi tarefa atribuída ao BNDES como meio para a industrialização. Daí vem a instrumentalidade do conceito de índices mínimos de nacionalização, combinados com Planos de Nacionalização Progressiva. O objetivo último para os benedenses tem sido, com sucesso, a criação de postos de trabalho qualificados e de empresas competitivas no país.

A Presidente trouxe consigo energia, franqueza, informalidade e sentimento de urgência. O BNDES ganhou e ganhará muito com o desdobrar desta atitude pela organização. Por ser uma casa eminentemente presidencial, os executivos tendem a reproduzir os mesmos valores ao longo do tempo, mediante aprendizado ou substituição. O que levará o BNDES provavelmente a se tornar mais ousado, dedicado ao fomento, a coordenação de esforços públicos e privados. Uma transformação que poderá levar ao engajamento direto dos funcionários menos graduados na construção de projetos de investimento.

A estratégia da presidente parece ser a de alavancar conjunto relevante de projetos de infraestrutura urbana, o que coincide com a proposta do Governo anterior para o BNDES. Duas mudanças importantes, contudo, definem a nova estratégia para o Banco: (i) a forma de apoio, privilegiando-se a atração de capital privado através de arranjos jurídico-institucionais-financeiros com Estados e Municípios; e (ii) a ação do BNDES junto aos entes sub-regionais na preparação dos processos de licitação para modelagem (advisers) e leilão das concessões/PPPs.

Ou seja, o BNDES estará priorizando as cidades mais viáveis (Entre 20 e 200 casos, dependendo-se do setor), deixando-se para “rodadas posteriores” o espalhamento da presença do capital privado. Temos dúvidas se Governadores e Prefeitos ficarão confortáveis com a espera, mas trata-se de uma aposta e os benedenses irão, como o fazem com qualquer Governo, apoiá-la e aprimorá-la como princípio ético. Faz parte da missão da AFBNDES zelar pelo cumprimento deste princípio, o que contribui para a confiança da sociedade na instituição.

Para se efetivarem os investimentos com a máxima urgência, a equipe recém-chegada criou Diretoria Jurídica, cujo papel será o de intermediar, junto aos órgãos de controle, a política operacional e procedimentos de enquadramento, análise, liberação e acompanhamento das operações diretas do Banco (até bem pouco tempo eram em cerca de 1.000 a.a.). Sem que se celebrem entendimentos com os órgãos de controle externos, dificilmente os benedenses se sentirão confortáveis em formular ou se comprometer com soluções ousadas e criativas. Ou seja, os termos das denúncias e ataques possuem um componente político, outro técnico. A concertação com órgãos de controle é item importante na agenda da AFBNDES junto a Nova Administração, dado que interferirá sobre o andamento das análises dos projetos nas Áreas operacionais.

Finalmente, faz parte da estratégia explicitada pela presidente priorizar ações de recursos humanos, de certa maneira reconhecendo-se que há grande desigualdade entre os colegas na instituição. O acesso a posições gerenciais tem sido percebido como essencialmente relacional, com sucesso de perfis cordiais, cooperativos e submissos. Herança do ciclo anterior que a presidente parece comprometida a romper. Da mesma maneira a AFBNDES se colocou à disposição da Administração para a realização de pesquisas de opinião com garantias de anonimato para os colegas (la garantia no soy jo).

Em síntese, a Nova Administração encontrou uma casa acuada pelos ataques despropositados à instituição, porém com muita vontade de trabalhar. O desafio da presidente não é pequeno e, com um pouco da grande sensibilidade que marca seu estilo pessoal, conseguirá superar os obstáculos que separam elevadas expectativas da realidade socialmente construída.

 

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