A Nova Luta Armada

Após 1968, a ditadura militar perdeu a vergonha. Reduziram-se os espaços para o livre-pensamento crítico, tão caro a conjunto amplo de pessoas com boa formação educacional no país. Como a fração dos brasileiros nas cidades era menor no tempo dos militares (50% em 1970, 86% em 2010), esta “elite do conhecimento” desempenhava então papel importante como formadora de opinião nas capitais brasileiras. A coordenação da resistência política pela via da expressão cultural, no entanto, mostrou-se insuficiente para conter a frustração da sociedade organizada.

Repare-se que em 1964 o golpe militar ceifou uma democracia jovem de cerca de 20 anos incompletos. Já o Golpe de 2016 ocorre após cerca de 35 anos, o que significa que a rede de organizações sociais encontra-se mais madura na atualidade do que o observado nos anos 60/70.

A saída à época foi a luta armada, da qual a Presidente eleita participou como guerrilheira. Nos 70s, aqueles meninos e meninas, que pegaram em armas e enfrentaram o establishment, percebiam a aliança entre uma elite estreita e próspera e os interesses norte-americanos. Compreendiam igualmente que a democracia havia sido usurpada unilateralmente, apenas porque a sociedade organizada passava a ameaçar os mesmos privilégios locais e interesses estrangeiros. Não lhes parecia possível outra forma de restabelecimento da justiça que pela tomada do poder, utilizando-se para isso dos mesmos métodos bárbaros adotados pelo establishment.

Fora de questão na atualidade, qualquer tentativa de destruição, seja de patrimônio público ou privado, será tratada como vandalismo e ilegalidade passível de punição pelo establishment.. Apesar de muito menos influente na atualidade, a “elite do conhecimento” hoje não apoia a “luta armada” como saída para coisa nenhuma. A anarquia observada como proposta nas redes sociais em 2013, articuladas que o foram pelos mesmos interesses norte-americanos, constituíram-se em ensaio sobre o que pode ser o destino do Brasil. Lembre-se que o norte da África mergulhou em caos social desde 2011 com a dissolução de Estados nacionais, responsáveis pelos sistemas de transporte, saúde, educação etc. No Brasil, os senhores da guerra seriam as milícias, os Bolzonaros…

No entanto, face a característica do Golpe de 2016, é possível o enfrentamento sem violência ou vandalismo, através da coordenação de esforços entre os membros da “elite do conhecimento” ou militantes de organizações sociais, ou ambos. Enquanto em 1968 a mídia de massas possuía hegemonia na construção social das interpretações dominantes, pequenos jornais impressos, como o Pasquim, mantinham vivos a resistência intelectual e o livre pensamento crítico.

A riqueza de possibilidades para associação nas mídias digitais não tem sido objeto de coordenação de esforços. Ao contrário, localizam-se como iniciativas isoladas, com relativamente pouca articulação. A ‘elite do conhecimento” e as organizações sociais podem e devem convergir esforços para constituição de agência de notícias descentralizada, cujo conteúdo pode ser dividido em temas, tal como ocorre hoje nos veículos de comunicação de massa tradicionais. A “nova luta armada” deve mobilizar esforços da “audiência” na produção de conteúdo, seja com reflexões e debates, seja denúncias ou investigações. A Nova Luta Armada deve ser travada no território digital com os veículos de comunicação de massa tradicionais, utilizando-se das mesmas armas digitais. Com isso, deve-se deixar exlícito o objetivo de diminuir a importância dos legitimadores de futuros golpes contra a democracia.

Suponho que esta situação de restrição da crítica a periferia da notícia seja fato comum em outros países e culturas. Uma agencia de notícias descentralizada e crítica deve buscar portanto desenvolver relações de parceria com outras entidades e associações no exterior, de maneira a obter e difundir conteúdo.

As corporações responsáveis pela comunicação de massa no Brasil e no mundo estão preocupadas com a ameaça que as mídias digitais podem representar para os seus negócios. Esta ameaça só se concretizará se houver coordenação e esforço entre os brasileiros.

 

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