O adágio do voto cameral pelo impedimento `a brasileira

As horas de existência cravadas no quadrado de tela para reality show representado na tarde de anteontem me fizeram conhecer melhor a atual legislatura federal, eleita no mesmo pleito que a presidente D. Roussef em fins de 2014. A repetição do fato, como nota insistente, intermeada aqui e ali por lucidez e heroísmo, permitiu-me agrupar sons e sentidos.

De um lado o vencedor, o Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Com aparente distanciamento e foco na sequência de Estados a votar, o Presidente da Câmara dos Deputados organizou a fila de votantes de maneira a reservar ao Estado de Pernambuco o púlpito derradeiro. O líder dos Deputados dirigiu o reality show com maestria no quesito suspense. Quando, do ponto de vista do andar de cima, o jogo já se encontrava decidido, na medida em que houve quorum (log in no sistema) acima dos 500 Deputados após a fala dos Lideres.

Uma segunda linguagem dos votos revela dois conjuntos de manifestações no púlpito, em momento solene para a história do país e na condição de representantes de interesses difusos. De um lado conjunto majoritário de Deputados, que justificou voto “pela família”, pela “minha região”, “por Deus”, entre outras menos decifráveis. Não houve nenhuma tentativa de esconder que o voto se justificou pelo benefício direto a ser legado a filhos, esposa, netos, etc. Aos meus ouvidos incrédulos, a sinfonia da sinceridade estava sendo executada em cada um daqueles discursos replicantes. Não se empreendeu nenhum esforço para esconder que, de fato, cada voto deixou um Deputado nanico  e aderente muito satisfeito por se sentir parte da maioria pelo impedimento. Sabe-se lá qual será o tamanho do legado que será deixado para “as famílias”.

Por outro lado, conjunto pequeno de Deputados utilizou o tempo que dispôs para esclarecer a nação, em termos históricos, a razão do seu voto. Em posição até certo ponto heróica, menos de um terço dos Deputados apresentou justificativas contra o objeto de denúncia e contra o processo em si, demonstrando, de muitas maneiras diferentes, o porquê do Golpe em curso. Tomados em conjunto, não se constituíram na repetição do mesmo, mas em tentativa de reverter, na conjuntura, o que me parece historicamente dado. O som de uma fera ferida, aqui e ali, se arrastando pelo caminho porque não se cansa de lutar.

Há quem acredite que no Senado Federal o resultado será diferente. Alega-se que o Presidente Renan Calheiros acumulará poder maior que o atualmente em mãos do seu equivalente na Câmara. O poder de comando sobre a montagem do Estado brasileiro, a partir de pacto político que reflita a nova configuração econômica do Brasil. E a diferença entre o “novo” e o “velho” aqui é binária. Trata-se de configuração de poder a ser montada SEM a presença das firmas de engenharia nacionais.

Mas quem seria este “novo ator”, que explicaria a necessidade de revisão do pacto político tão radicalmente ? Na realidade, nada, ou ninguém. Tratam-se dos mesmos velhos interesses financeiros internacionais que preconizam o retorno da agenda neoliberal ao país após cerca de 15 anos de desenvolvimento com inclusão social. Dado que perderam as eleições brasileiras de 2014, deveriam ter-se resignado. Mas não. Organizaram Golpe que vem sendo denunciado desde março de 2014.

Desde o início do segundo mandato da Presidente eleita, a pressão foi grande o suficiente para que o Ministério da Fazenda fosse ocupado por ex-executivo do Bradesco. O engenheiro Levi esforçou-se, nos limites do bom relacionamento, para realizar ajuste fiscal com aumento de juros. Simultaneamente, abriu-se sangria de denúncias na midia de massas (Estadão, Globo e Veja, principalmente), de fatos e manchetes policiais em torno da então mais nova operação moralizante da polícia federal: a “lava-jato”.

Querem a fornalha da venda de ações de empresas públicas até que se queimem por completo os alicerces do Estado Desenvolvimentista brasileiro. As posições de comando sobre as estratégias corporativas de empresas Petrobrás, Eletrobrás e Caixa Econômica Federal serão perdidas e, com estas diminui-se a possibilidade de afirmação de qualquer projeto de independência para o Brasil. As rápidas medidas que se seguirão na economia serão como espécie de “empréstimo ponte”, porque a ser consumido em dois anos. A agenda de privatização permitirá ganhar-se tempo para que as grandes petroleiras internacionais finalmente penetrem seus canudos e nos respinguem com as migalhas do ouro negro. Com isso, o plano econômico apoiado por Michel Temer parece contar com os recursos de Royalties como fluxo compensatório ao aumento de remessas de capital de curto prazo do Brasil e déficits na balança comercial.

Em síntese, no adágio da história, a reconfiguração neoliberal do Estado brasileiro não pode prometer outra coisa que terra arrasada e povo pobre, escravizado por elite decadente. O saldo será realmente um golpe. Um golpe que se consumará. E será tratado como “Revolução”, assim como o fez a mesma organização familiar entre 1964 e 1982.

 

 

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