Geopolítica na Siria: ingredientes para terceira guerra mundial

 

  1. Introdução

A estreita faixa de litoral cercado por montanhas permitiu à navegação de cabotagem abrigo e suprimento de água, mineral escasso nas rotas comerciais desde a antiguidade fenícia. Dois portos importantes são Tartus e Latakia.

Sobre as montanhas, abrigaram-se historicamente diferentes culturas, nas quais se incluem parte dos cerca de 2,6 milhões de cristãos de origem assíria, armênia e árabe, divididos entre cerca de 10 seitas, entre outros (Cerca de 80,000 Yizidis e menos de 100 judeus[1]). Para estes grupos prevalece a defesa de autonomia e segurança ao longo de séculos de dominação estrangeira.

Mais ao sul, erguem-se as montanhas de Jabal al-Druze, de onde vertem águas para abastecer o contingente populacional de Damasco. A convergência de culturas trouxe prosperidade comercial e interesse militar ao antigo entreposto rumo ao porto libanês de Beirute.

Mais a leste, daí o nome de Levante, os mercadores estabeleceram rotas em terra, aproveitando-se do fértil vale do Rio Orontes. Ao norte, há Aleppo, integrada comercialmente em rotas por terra até a Anatólia e o Iraque, através do vale do Rio Eufrates.

No interior desértico habitam grupos islâmicos de origem sunita, que apesar de majoritária, ocupa posição periférica, dado que não participa da próspera economia de trocas no país.

Localizada entre os poderosos vizinhos Israel, ao Sul, Iraque ao leste e a Turquia ao norte, a sociedade Síria enfrentou historicamente dificuldade em afirmar governo autônomo e soberano.

O objetivo do presente artigo é discutir brevemente o conflito militar desencadeado na Síria e o potencial para enfrentamento direto entre grandes potências que o mesmo enseja.

Para tanto, na seção 2 se recupera a etiologia do enfrentamento militar em curso. Na seção 3 se caracteriza a posição de cada potência com interesses no território. Na seção 4 se registram algumas conclusões.

  1. Origens do conflito militar na Síria

O período que vai desde o início da primeira Guerra mundial até o mandato da França sobre a Siria, outorgado pela Liga das Nações em 1922, foi marcado por breve período de independência política. Durante dois anos o líder Faysal, apoiado pela Inglaterra, contrapôs-se à dominação turca e francesa no país. Conduzido ao poder por meio de militância de jovens intelectuais, organizados em sociedades clandestinas, constituem momento importante no projeto pan-árabe e na atuação de grupos políticos islâmicos posteriores.

Tão breve terminado o conflito, a França retomou domínio sobre o território, fortalecendo-se a posição dos cristãos em detrimento dos árabes sunitas. A presença francesa fez uso da força policial-coercitiva para garantir os interesses da banca. Para isso, dividiu-se a Siria em territórios desenhados a partir de fronteiras étnico-culturais.

Em 1925 a cultura Druze iniciou rebelião que culminou no bombardeamento de Damasco pelos franceses. Um dos pleitos era que a França deveria assinar termos de ocupação, assim como a Inglaterra o fizera com o Iraque em 1922. Em 1930 estabeleceu-se governo independente com Constituição aceita pela França.

O Estado colonial franco-sírio permaneceu íntegro durante a 2ª GGM, porém sob a tutela do Governo Livre Francês, presidido por De Gaulle. Em 1944 os EUA, a Inglaterra e a Rússia declararam independentes os Estados da Síria e do Líbano, exigindo-se retirada imediata das tropas francesas. Em abril de 1945 a Síria entrou para a ONU e participou da fundação da Liga Árabe. Cerca de um mês depois, a França bombardeou, pela segunda vez no mesmo século, a cidade de Damasco.

Após a saída da França, as minorias étnico-culturais não foram capazes de estabelecer pactos políticos duradouros, o que resultou em tentativas, mal ou bem sucedidas, de golpe de Estado.

Neste ambiente politicamente frágil e progressivamente hostil ao ocidente reforçou-se a influência da Rússia sobre os governos locais. Em 1956 foram assinados tratados de cooperação com a URSS e de compra de armas pela Siria. Um ano depois lideres Baatistas apoiados por comunistas subiram ao poder.

Uma das primeiras ações foi a aproximação com o Egito com a finalidade de criação de uma nação árabe unida, cuja existência foi institucionalizada em 1958. Em poucos anos a Síria percebeu que, a despeito de investimentos realizados no território, se lidava com a realidade de novo dominador. Em 1961 golpe militar sirio pôs fim à dominação egípcia.

Por cerca de 10 anos a Síria transitou entre pactos políticos provisórios, revisados a cada tentativa ou sucesso de golpe de Estado. Alternaram-se no poder representantes de elites conservadores, alinhadas com o ocidente, e segmentos sociais alinhados aos interesses russos. Ou seja, a Síria incluiu-se entre outros territórios na África onde ocorreu conflito político explícito em plena guerra-fria.

Com a ascensão de Hassad ao poder no início dos anos setenta, formou-se pacto político entre nacionalistas, conservadores e socialistas, com relações crescentes com a Rússia e mantendo-se posição explicitamente não-alinhada.

A oposição sunita exigia que o Estado Sírio se autoproclamasse islâmico, mostrando-se inflexão da questão religiosa sobre o projeto pan-arábico. Em 1975 o governo Assad aliou-se à Jordânia em tratado de mútua proteção militar.

Em 1978 Assad foi re-eleito pelo partido Baath para segundo mandato de sete anos. Neste período motorizam-se ações terroristas promovidas por grupos sunitas. O enfrentamento das forças governamentais levou a mortes que excederam o número de dez mil civis, boa parte sunitas.

Com o advento da guerra entre Irã e Iraque, a Síria manteve-se fiel ao colaborador russo e declarou apoio ao Irã. Aproveitando-se disso, Israel realizou ações militares no país por ocasião da anexação das colinas de Golã um ano mais tarde.

Desde então o regime autocrático do sucessor e filho Assad Jr tem resistido à deposição, a despeito da ação direta de governos estrangeiros em ações pró e contra o regime.

  1. Perspectiva militar da crise política na Siria

Em 2011, no espírito criado a partir de campanhas oposicionistas deflagradas em facebook, camadas médias urbanas iniciaram movimento rebelde, que rapidamente resultou em guerra civil. Até ai, os EUA, Inglaterra e França estavam unidos na oposta de desestabilização armada do regime. Com este intuito, passaram a apoiar explicitamente os rebeldes sunitas contra o governo.

A resistência do regime foi contudo potencializada por apoio militar e logístico da Rússia e do Irã, prolongando-se o conflito e reduzindo-se a possibilidade de paz negociada.

A atuação do Estado Islâmico agravou o problema e aumentou conteúdo pan-islâmico para propostas conservadoras xiitas. Neste sentido, o apoio do Hesbolah, grupo político que ascendeu ao poder no vizinho Líbano, parece ter influência. Grupos terroristas sob comando do EI atuam na Europa, no Cáucaso, Egito, na Arábia Saudita, Faixa de Gaza e Líbano, entre muitos. Cerca de 10 milhões de pessoas vivem hoje em zonas controladas pelo EI. O próximo passo, consolidado o Califado, é declaradamente o ataque a Roma.

Em julho de 2013, a ONU afirmou que 90 mil pessoas haviam morrido no conflito. Apenas um ano depois, esse número já havia aumentado para 191 mil e, atualmente, já chegou a 250 mil. Em um dos maiores êxodos da história recente, mais de 4,5 milhões de pessoas fugiram da Síria. Conta-se em metade das famílias desabrigadas no país.

Com o acirramento dos conflitos, Rússia e EUA aumentam contingentes militares na região. Dada disposição da Rússia, que amplia bases navais e aéreas, conflito direto entre russos e norte-americanos pode levar a rápida escalada com envolvimento de grandes potências.

Várias sanções políticas e econômicas já foram impostas, como o congelamento dos bens do Estado sírio e a suspensão da comercialização do petróleo, principal produto exportado pelo país. No entanto, não há solução viável no horizonte.

Nestes termos, a eleição norte-americana ao final do ano ganha contornos importantes no encaminhamento da situação-problema. Caso os Republicanos sagrem-se vencedores, parece razoável se esperar ajuda militar norte-americana crescente aos parceiros de Israel e aliados rebeldes, abandonando-se a via negociada a partir de cessar-fogo.

Recentemente, a Rússia afirmou que a iniciativa da Arábia Saudita de mandar tropas para o teatro de conflito sírio não seria bem recebida por Moscou, podendo-se resultar em “conflito prolongado”.

  1. Conclusões

O território sírio tem sido disputado por dominadores ocidentais desde o fim da dominação turco-otomana ao final da 1ª GGM. À França foi outorgado mandato colonial, sendo exercido o poder de maneira coercitiva.

O estabelecimento do regime Assad desde o final dos anos sessenta permitiu a consolidação da independência, com concessões mantidas ao ocidente, porém crescente aproximação com a Rússia, com a qual estabeleceu acordos militares.

Nos anos 80 a regime Assad apoiou o Irã e desde então tem mantido relações de confiança com o país vizinho.

A perspectiva do ocidente em retomar controle político sobre território sob influência russa desencadeou guerra civil prolongada desde 2011.

Com emprego de material bélico pesado, o governo sírio tem afirmado independência e soberania contra rebeldes financiados pelo ocidente e por xiitas reunidos no Estado Islâmico. A Rússia e os EUA tem aumentado presença militar na região justificando-se como mérito a luta contra os terroristas do EI, o que pode levar ao envolvimento de outros países, como Arábia Saudita e Europa. Nesytas circunstâncias, as declarações russas indicam reação tempestiva e aumento no conflito militar.

[1] Referência depoimento de Nina Shea, líder de organização pela liberdade religiosa, em sub-Comitê da Comissão de Assuntos Internacionais da Casa dos Representantes dos EUA em junho de 2013. Obtido em http://docs.house.gov/meetings/FA/FA16/20130625/101036/HHRG-113-FA16-Wstate-SheaN-20130625.pdf em março de 2016.

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