O que anda nas cabeças e nas bocas ?

Para além da Casa Grande existe um oceano de brasileiros que observa atentamente a evolução da situação política e econômica.

Se esquecermos provisoriamente a luta de classes (sim, porque ela de fato lá está), e classificarmos a população brasileira segundo posto que lhes cabe no “mundo das organizações”, o que resulta? Contingente significativo da população encontra-se predestinado a participar da base operacional. Ou seja, condenados a executar tarefas com elevado grau de padronização e, portanto, sujeitas a extinção sistemática de postos através de automação. Tomando-se os dados apresentados na Figura 1, pode-se perceber que cerca de 92% dos brasileiros desempenhavam tarefas com baixos requisitos de conhecimento e remuneração (classes C,D e E) em 2003. Boa parte destes brasileiros não possuía credenciais profissionais (diploma técnico ou superior) e havia estudado em escolas públicas e particulares de baixa qualidade. Em 2014 este contingente reduziu-se para cerca de 75% dos brasileiros.

O que fez a diferença entre 2003 e 2014 foi o aumento no número de pessoas que passaram a auferir posições superiores nas hierarquias organizacionais. Seja porque as funções ampliaram-se (empresa cresce) quanto novos postos foram abertos (novas empresas/projetos). Ao todo, cerca de 16 milhões de pessoas ascenderam à condição de participantes dos processos decisórios nas empresas (Classes A e B), ainda que na condição de gerência de linha. Assim, passaram a participar da gestão de marketing, finanças, TI, logística, etc. Se em 2003 os postos de gerencia de linha eram algo insuficientes para se prover bons empregos para a classe média alta (13,3 milhões), depois de uma década (2014) as organizações brasileiras acomodavam 16 milhões a mais !

Figura 1 – Evolução da pirâmide social brasileira entre 2003 e 2014

Claro está que a ascensão social observada no período histórico 2003-2014 é provisória e depende da continuidade das estratégias de industrialização com distribuição de riqueza implementadas até 2014. Caso fracassem as estratégias de desenvolvimento, boa parte dos bons postos de trabalho criados serão destruídos, o que gerará percepção de empobrecimento relativo significativo junto às camadas “perdedoras” e consequente frustração de muitos jovens sem sobrenomes importantes que aspiram mobilidade social plena.

Estes cerca de 16 milhões de brasileiros que conquistaram até 2014 papéis de maior responsabilidade nas firmas tornaram-se formadores de opinião nos territórios onde habitam, muitas vezes na periferia dos endereços nobres nas principais cidades brasileiras. Talvez estes brasileiros hoje detenham a chave do futuro político do país.

O que anda nas cabeças e nas bocas desta gente ? Minhas hipóteses para os resultados que seriam encontrados mediante aplicação de pesquisa: (i) os cerca de 16 milhões de “novos gestores” encontram-se acuados pelo debate político grávido de ódio e conservadorismo contra os mais pobres; (ii) preferem o silêncio a se exporem na contra mão da grande imprensa e; (iii) não anseiam o agravamento da crise política porque perceberam a ameaça que isto representa para as conquistas individuais.

O jogo organizacional entre gerentes de linha é sofisticado, necessita-se de prudencia, ainda mais quando há discriminação. Dado que os altos comandos são em geral preenchidos por representantes próximos dos interesses controladores, prevalece nas organizações a “verdade” que interessa ao topo. E aos gerentes de linha, mais que quaisquer outros, importa aderirem, ao menos aparentemente, a narrativa hegemônica que se soma às manchetes de jornal.

Se a análise está correta, o aumento alarmante nos índices de desemprego esperado para 2016 deve ser acompanhado de maior apoio político ao governo eleito. E não o contrário. É esperar para ver.

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